IGNORAR A BIODIVERSIDADE CUSTA CARO, E OS DESASTRES NATURAIS ESTÃO AÍ PARA PROVAR

Andrei Klohs

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Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado uma escalada preocupante de desastres naturais. No Estado do Rio Grande do Sul, a realidade bateu à porta com chuvas intensas, enchentes, deslizamentos e a perda de vidas e patrimônios em diversos municípios. Isso aconteceu em maio de 2024, e fenômeno parecido aconteceu há uma semana atrás. A pergunta que paira no ar é inevitável: por que esses fenômenos climáticos extremos estão se tornando mais comuns?

A resposta não está apenas no aquecimento global ou em fenômenos climáticos pontuais. Está também, e de forma direta, na forma como temos destruído e ignorado a biodiversidade que outrora protegia nossos territórios e comunidades.

A BIODIVERSIDADE COMO LINHA DE DEFESA

Árvores não servem apenas para embelezar a paisagem. Florestas nativas, matas ciliares, brejos, campos e banhados cumprem funções ecológicas essenciais: regulam o clima, protegem o solo, controlam o ciclo da água e reduzem drasticamente o impacto de chuvas fortes.

Quando uma chuva cai sobre uma área bem conservada, com solo permeável e vegetação saudável, a água infiltra aos poucos, é absorvida pelas raízes, desacelera. Quando essa mesma chuva atinge um ambiente degradado, ela não encontra barreiras: escorre com violência, leva o solo embora, enche rios rapidamente e provoca enchentes.

A biodiversidade atua, portanto, como um amortecedor natural contra os extremos. A variedade de espécies vegetais e animais não é um detalhe estético da natureza, é o que mantém os ecossistemas equilibrados e resilientes.

O CUSTO DA DESTRUIÇÃO AMBIENTAL

Nas cidades, canalizamos córregos, impermeabilizamos solos e desmatamos até o último metro quadrado. No campo, substituímos florestas por monoculturas e pastagens exóticas, que não cumprem o papel ecológico das espécies nativas. Resumidamente, destruímos nossos próprios biomas.

O resultado é um território vulnerável, onde qualquer evento climático mais intenso, que já é mais provável devido às mudanças globais, se transforma em tragédia. O que poderia ser apenas uma tempestade isolada, torna-se um desastre de grandes proporções.

Pior: muitas dessas áreas atingidas já foram cobertas por vegetação nativa. Já tiveram biodiversidade capaz de amortecer o impacto. A escolha de ignorar esse valor ecológico é uma escolha política, econômica e social, e os impactos recaem sobre todos.

RESTAURAR ECOSSISTEMAS É PROTEGER PESSOAS

Não existe solução climática sem natureza. Precisamos restaurar matas ciliares, reverter o avanço do desmatamento, proteger as espécies nativas e reorganizar o uso do solo com inteligência ecológica. Isso não é só “cuidar do meio ambiente”, é cuidar da segurança das populações, da estabilidade das cidades e do futuro das próximas gerações.

A biodiversidade é aliada, não obstáculo. E quanto mais cedo entendermos isso, mais chances teremos de evitar novas catástrofes.