A SÍNDROME DA MUDANÇA DE BASE: ENTENDA O CONCEITO

Andrei Klohs

Autor

SOBRE O CONCEITO

A Síndrome da Mudança de Base (Shifting Baseline Syndrome, em inglês), formulada pelo cientista pesqueiro Daniel Pauly, descreve como cada geração tende a considerar “normal” o estado do ambiente que encontrou na juventude. Trata-se da mudança, de pouco a pouco, do que aceitamos como “normal” no ambiente natural, causada seja pela falta de experiência, memória ou conhecimento sobre o que seria seu estado bem conservado, não antropizado.

Isso parece inofensivo, mas é um dos mecanismos mais silenciosos de perda ambiental: quando a linha de referência vai sendo rebaixada de forma gradual, deixamos de perceber o quanto o mundo já foi mais rico, mais diverso e mais abundante. O que chamamos de “natural” passa a ser apenas um resíduo, uma fotografia tardia de um processo de degradação acumulada. Sem uma memória clara do que existia antes, nossas expectativas diminuem sem que percebamos.

O PESCADOR QUE NUNCA VIU O MAR CHEIO

O exemplo clássico é o pescador de hoje. Ele trabalha em um mar com poucos peixes, cardumes menores e uma diversidade que parece limitada porque sempre a viu assim. Para ele, esse é o mar “normal”. Seu pai talvez tenha conhecido mais abundância e seu avô, muito mais. Cada um, em sua época, percebeu uma redução principalmente ao final da vida, mas a geração seguinte só registrou o resultado final dessa queda, sem a dimensão do que se perdeu ao longo de todo o caminho. E há algo ainda mais importante: esse mesmo pescador sabe que a biodiversidade está diminuindo, porque nota a redução ao longo da própria vida; no entanto, ele não pode compreender o tamanho real do declínio, pois já herdou um ambiente alterado. Sua referência inicial já era baixa. Ele percebe uma queda, mas não imagina o abismo.

Se esse pescador ensina a pesca ao filho, o processo continua. O filho já começa sua vida em um cenário ainda mais pobre, mas considerará aquilo como normal. Nunca terá visto o que realmente existiu. Nunca terá percebido o que desapareceu antes de ele nascer. Sua linha de base será ainda mais reduzida, e, a partir dela, definirá o que é possível, aceitável e desejável no mundo que herdou. E assim por diante, um processo que já acontece há séculos.

QUANDO A PERDA VIRA PAISAGEM

Essa síndrome não está presente só no mar. Ela aparece quando chamamos de “mata fechada” uma vegetação secundária em estágio médio de regeneração florestal, simplesmente porque nunca convivemos com uma floresta verdadeiramente madura, uma vegetação primária; quando achamos normal um rio turvo, pois já crescemos vendo-o assim; quando acreditamos que certas espécies “nunca existiram por aqui”, embora tenham desaparecido antes do nosso tempo. Até mesmo eventos climáticos extremos podem parecer parte de um ciclo natural apenas porque a instabilidade passou a fazer parte da experiência de uma geração que já nasceu em crise. A perda vai sendo incorporada à paisagem emocional do nosso tempo, e com isso nossa imaginação ecológica se reduz.

PARA QUEM TRABALHA COM MEIO AMBIENTE

A Síndrome da Mudança de Base afeta diretamente a forma como planejamos, restauramos e projetamos o futuro. Sem uma noção clara da linha de base real, a que existia antes das perdas se acumularem, de literalmente séculos atrás (pense na Mata Atlântica antes da colonização, por exemplo), nossas metas se tornam modestas, nossas soluções ficam aquém do necessário e nossa visão de recuperação se limita ao pouco que conhecemos (que é pouco mesmo). Restauração ambiental não pode ser guiada apenas pela fotografia atual; ela precisa ser informada por uma memória mais ampla, histórica e ecológica. Caso contrário, reconstruiremos paisagens pobres que parecem ricas simplesmente porque não temos parâmetros melhores.

UMA PERSPECTIVA DA QUADRAT

Na Quadrat, tratamos esse conceito com seriedade porque ele influencia diretamente a qualidade das decisões ambientais. Consultoria não é só técnica: é contexto, interpretação e responsabilidade com a história da paisagem. Sem reconhecer a mudança de base, corremos o risco de aceitar como satisfatório um cenário que é, na verdade, apenas mais um estágio da degradação. Mas quando entendemos como a linha de referência vem se deslocando, conseguimos propor medidas mais ambiciosas, avaliar impactos com mais clareza e planejar restaurações que realmente apontam para o que é possível, não apenas para o que ainda resta.

A Síndrome da Mudança de Base nos lembra que preservar é também lembrar. E lembrar, neste caso, é um ato de coragem. Exige reconhecer que o mundo já foi maior, mais vivo e mais complexo do que a nossa memória alcança. Ao recuperar essa perspectiva, abrimos espaço para imaginar um futuro que não repete resignações, mas busca recompor aquilo que, geração após geração, fomos ensinados a aceitar como perdido.